O mais humilde dos goleiros. Um homem bom e guerreiro, um atleta abandonado pelo Palmeiras quando quebrou a perna e quase encerrou a carreira. Passou meses sem receber e teve que vender quadros, uma de suas paixões, além do rock pesado, para sobreviver. O São Paulo o resgatou da miséria e quase fim precoce. Sob o comando de Telê Santana e junto de um grupo formidável e raro de jogadores de futebol de grande caráter e amigos uns dos outros, Zétti foi peça fundamental no maior São Paulo de todos os tempos. Decisivo nas duas primeiras Libertadores e Mundiais que ganhamos e também na porta de entrada para tudo isso, o Brasileirão de 1991. Mesmo sem a velocidade de um Rogério e outros arqueiros acrobatas, foi um goleiro fantástico. Tinha tanta garra e amor à sua camisa e prrofissão que conseguia levar seu corpo pesado a voos espetaculares graças ao seu amor por defender, sua meta e seus companheiros.
O que dizer de um cara que era tão querido por todos que a FIFA o perdoou rapidinho do famoso chá de coca que tomou na Bolívia antes de um jogo da seleção? Imagino o cara responsável por dar o veredito final nesse processo de doping? "Caramba, é o Zétti, só pode ser inocente!"
Zétti foi ainda o entrevistado com quem passei mais tempo em minha carreira de jornalista. Minha fira já tinha virado, duas horas de papo e ele seguia falando, me atendendo como se eu fosse da Rede Globo, com a maior atenção do mundo. A entrevista só acabou quando as luzes do CT da Barrra Funda começaram a ser apagadas e eu falei, "pô, Zétti, tá bom, valeu demais, já posso até escrever um livro sobre você".
Valeu ao Matias por resgatar essas defesas históricas, realizadas no começo da decisão da segunda Libertadores que vencemos. Depois delas o São Paulo ficou mais tranquilo e massacrou os chilenos, na até hoje maior goleada em uma final de Libertadores.
Filadélfia,
EUA, anos 70. Mickey é o veterano treinador que percebe o potencial de um
trabalhador braçal, um jovem ignorante que é, porém, um colosso de coração e
capacidade de lutar. É em seu humilde templo, um velho ginásio na parte pobre
da cidade, que o homem de cabeça branca se esforça para extrair campeões dos
mais brutos diamantes. E não há nada mais bruto em seu pequeno e judiado gym
que o pacato leão de chácara, pedreiro, açougueiro, o faz tudo Balboa. Com uma
dedicação, olho e atenção só encontradas em treinadores que são mestres, Mickey
vai transformar um mero enfiador de porradas no maior peso pesado do boxe mundial. Porque Mickey
conhece todas as artes da nobre arte. Porque Mickey sabe quão longa e dura é a
estrada. Porque Mickey não troca seu velho ginásio escondido no segundo andar
de um predinho surrado por nenhum espaço maior, mais arejado e moderno.
É ali,
após vencer a penitência inicial e simbólica da longa escadaria que dá acesso
ao ginásio e ringue, que os sonhadores mais miseráveis sonham glórias só
possíveis na imaginação de crianças ultra-inocentes.
Foi em
lugares similares, como o ringue do Ibirapuera, em São Paulo, que o brasileiro Antonio Carollo construiu
sua carreira. A carreira que foi sua vida. Mais vitorioso treinador da história
do boxe brasileiro, Carollo foi o homem que treinou o único medalhista olímpico
que o Brasil já teve, Servílio de Oliveira (México, 1968) e ainda o guia
responsável por nosso primeiro campeão mundial, o mesmo Servílio. Carollo
esteve também em mais 4 olimpíadas e treinou um certo Acelino de Freitas, o
Popó, o talvez melhor ou mais vencedor boxeador que o Brasil já teve, mais de
uma vez campeão mundial.
Carollo
partiu aos 87 anos, este mês, e a repercussão na mídia resumiu-se a breves
notas em alguns jornais e sites. Saber mais sobre ele só foi possível
pesquisando no youtube, em especial numa velha e bela reportagem do programa
Viver e Conviver, e numa homenagem recente de uma produtora de vídeo. A grande
mídia, que dá espaços enormes para as baladas, sacanagens, cortes de cabelo
mudados e até estilo (na verdade, falta de...) dos jogadores de futebol, não
foi capaz de fazer uma reportagem à altura de um homem que deu sua vida ao
esporte e sociedade brasileira.
Sociedade, sim, pois Antonio Carollo, além de
treinador, foi tutor, amigo e pai de muitos jovens que tomaram um rumo na vida,
ou tornaram-se cidadãos, graças aos seus ensinamentos e sentimentos.
Sentimentos
que exalavam de Carollo a cada treino, a cada gesto, a cada conversa.
Sentimentos de apoio, de atenção total,
de cuidado, de palavras, mãos e corpo todo essenciais simulando os golpes e
movimentos perfeitos do boxe. Essenciais pois eram a sua voz e gestos os mais
valiosos guias. Um acompanhamento minucioso de professor que orienta e
transforma. De mestre que sabe todos os caminhos que levam à lona, nos ringues
e na vida.
Difícil
não ficarmos tocados com as imagens do vídeo a seguir, com Carollo, na época
com 83 anos, participando dos treinos, comandando tanto os exercícios de
aquecimento como os golpes que ele desenhava sobre o ringue com a precisão de
um Senhor Myagi das luvas. Difícil não sentirmos falta, mesmo naqueles que não
o conheceram, da simpatia que ele exalava fora do quadrado de luta, o seu
carinho de mestre que foi a estrela a conduzir tantos lutadores. Difícil não
perceber o respeito que ele tinha pelo esporte e arte que amava. Um esporte,
sim, brutal, mas que ele tornava mais humano e elegante porque sabia ensinar
com cuidado.
Difícil
não dar um vazio no peito ao descobrir que um Senhor maiúsculo assim foi embora
sem ser reverenciado e homenageado como devia.
Mas
talvez ele quisesse dessa forma. Talvez ele tenha preferido ficar escondido em
pequenos ginásios, e num esporte cada vez menos popular no Brasil e no mundo
como o boxe em tempos de MMA.
Antonio “Mickey” Carollo não parecia ser um
homem atrás dos holofotes da fama. Como toda estrela de verdade, esse treinador
contentava-se com um papel e missão
maravilhosa: iluminar o coração e a carreira de seus aprendizes. E quantos
campeões e homens ele formou com sua luzinha mágica chamada vontade e abnegação
para ensinar. Um ensino que era amor, tão transparente em cada atitude dele.
Pobre
do país que não preserva o legado de seus pequenos grandes mestres, pessoas
muitas vezes tão extraordinárias como os mais fabulosos campeões.
Obrigado,
Carollo, por nos lembrar que ensinar é algo belo, mágico e sagrado.
Só mesmo um gênio para colocar um efeito contrário do habitual numa cobrança de falta. Numa posição típica de um batedor destro, Messi mostrou que é possível fazer mágica com a canhotinha. E tem gente que ainda diz que ele não é gênio, que precisa provar isso numa Copa, com a seleção e blá blá blá. Messi é a fantasia semanal que nos salva da realidade esmagadoramente pobre na maioria do futebol mundial de hoje, com as exceções de seu Barcelona, de alguns lampejos do Real (sim, o mala do CR joga muito, mas gols de calcanhar como o de ontem o Doutor Sócrates fez muito mais e mais bonitos) e de Neymar.
Elegância e postura; muita técnica, velocidade e explosão; rapidez de raciocínio. A ancestral e nobre arte dos antigos cavaleiros de capa e espada sobrevive no esporte da esgrima. E o esporte, quase sempre uma ferramenta mágica, faz esta cativante moça meio bielorrussa, meio brasileira, ter mais força para viver e enfrentar tantos problemas desde que nasceu. Karina Lakerbai é uma vencedora desde que veio ao mundo, por ter resistido aos primeiros anos de vida para quem cresceu a poucas centenas de quilômetros de Chernobyl, nome da cidade do maior desastre nuclear da história, onde uma usina explodiu, matou e depois contaminou milhares de pessoas na Ucrânia e Bielorrússia, na época pertencentes à Uniao Soviética. Karina nasceu com baixa imunidade - o sangue com baixos níveis de leucócitos -, problemas respiratórios e osteocondroma - tumor ósseo benigno. Procurando um lugar mais limpo para viver, longe dos efeitos radioativos, seus pais a levaram primeiro à Georgia e depois, quando a menina tinha 6 anos, para o Brasil.
Hoje, Karina é uma das melhores esgrimistas do Brasil, e isso depois de passar, aos 14 anos - devido a sua doença óssea - por cirurgias de raspagem de ossos no ombro, quadril e joelho. Após as operações ela ainda deslocou o ombro direito e precisou aprender a jogar esgrima com o braço esquerdo e, mesmo assim, venceu de esquerda o Sul-Americano.
Karina, essa incrível sobrevivente e guerreira, está no Pan-Americano de Guadalajara defendendo o Brasil e semeando este sorriso maravilhoso, de quem valoriza cada pedacinho do seu esporte e vida. Touché, moça, e obrigado por nos dar a honra de sermos defendidos por você. (A reportagem saiu no Esporte Fantástico, na Record, veja em vídeo aqui): Karina
(Há também uma boa reportagem, e álbum de fotos dela, no site daFolha)
Não jogo videogame nem frescobol, mas a precisão da troca de passes desse maravilhoso Barça de Xavi, Iniesta, Messi, Pedro e companhia lembra a troca frenética e exata de passes virtuais; e a velocidade vertiginosa e mesma precisão das raquetinhas das areias. Mas, claro, futebol é muito melhor e maior que joguinho e brincadeira de praia. E maior ainda - alcançando o raro patamar de arte tão refinada como se fosse uma exposição de algum gênio da pintura ou escultura - é o futebol criado nas canteras (campinhos) de La Masia: a escolinha e fábrica de talentos deste time que não é um mero time, mas um clube e uma filosofia e ideologia de vida chamada Barcelona.
Uma ideologia do toque de bola, do futebol arte, do futebol que aprendemos a amar. Da bola de pé em pé que aprendi a amar primeiro com o Flamengo de Leandro, Júnior, Andrade, Adílio, Zico e Cia; depois com o Brasil de Telê e seus gênios reunidos no meio-campo – Cerezzo, Falcão, Sócrates e Zico; depois com o São Paulo de Cilinho e depois de Telê e seus comandados tricolores.
O mesmo toque que um dia foi implantado por Cruyjff no Barça e depois seguido por sucessivos treinadores até alcançar um grau ainda mais elevado e belo com Pep Guardiola. Sim, com Guardiola o que já era belo ficou espetacularmente belo. Porque o toque de bola, o tik-tak que sempre existiu, sob o comando de Pep no banco e de Xavi e Iniesta em campo alcançou uma velocidade e verticalidade jamais vistas antes.
As tabelinhas do DNA azul-grená, da escola barcelonista de futebol, vem do passado; mas essa rapidez e enfiadas de bolas inacreditavelmente agudas e verticais, isso veio com Xavi e Iniesta, a dupla de mágicos ilusionistas misturados a franco-atiradores de precisão letal. E ainda há Messi, o gênio-carrossell, o menino-homem que simplesmente joga como se fosse uma metralhadora disparando e acertando o alvo para qualquer lado.
Tudo isso transformou o Real Madrid em pó em poucos minutos do massacre humilhante de hoje.
Tudo isso salva o futebol, o esporte e a arte - a cada recital do Barça – da mediocridade pragmática do futebol de resultados imposto pela maioria dos treinadores do mundo todo.
Obrigado, Barça, por mais uma demonstração de que a vitória do romantismo ainda é possível. E como é bacana ver um time fantástico desse ainda ser estrelado por homens tão discretos, humildes e sérios como Xavi, Iniesta e Messi. E liderado por um capitão à moda antiga, nobre leão, chamado Carles Puyol.
Ah se todos os grandes atletas brasileiros fossem assim. Na madrugada de terça pra quarta, acordei para vê-las. Acabei capotando, mas acordei a tempo de vê-las dando entrevistas ao final da bela vitória contra as americanas. Quando Jaqueline surgiu, o repórter perguntou como se sentia ao ter se destacado tanto no ataque, o que não é comum já que Jaque faz mais funções defensivas e técnicas (tem o melhor passe da seleção e defende como poucas). Jaque, mesmo sendo a maior pontuadora da partida, respondeu: “Sou mais uma coadjuvante mesmo, jogo para a equipe, mas é bacana quando faço muitos pontos”.
Sim, essa formidável Jaqueline, jogadora completa (poucas no mundo defendem e atacam tão bem, e são tão técnicas), preferiu assumir sua condição de carregadora de piano do que aproveitar os louros de seus 18 pontos em partida tão dura contra as vice-campeãs olímpicas. Fiquei imaginando se algum grande nome do nosso futebol teria a humildade de mostrar a mesma opinião.
Pouco depois, outra que fez belíssima partida, a meio de rede Thaísa, começou a chorar quando a TV a colocou em contato, direto do Japão, com seus pais, que estavam no Brasil. Lembrei dos idiotas que criticavam a sensibilidade de nossas meninas do vôlei antes delas se consagrarem campeãs olímpicas em Pequim e calarem a boca dos que as acusavam de sensíveis demais.
Bela e bem-vinda, até exemplar para as crianças e jovens que dão seus primeiros passos no esporte, é o coração sensível, de quem sente demais, de nossas meninas do vôlei.
Sábado cedinho, 7 horas, tem mais. Hora da semifinal contra o Japão. E domingo, a grande final.
PS – Bem diferente do super vencedor mas histérico Bernardinho, como é bom admirar a calma e broncas nas horas certas desse excepcional treinador e ser humano, Zé Roberto Guimarães.
Nenhum outro amou – e ama - tanto o futebol como ele.
Nenhum outro precisou tanto do amor da torcida.
Nenhum outro precisou tanto escutar o seu nome gritado pelas torcidas e por todo um povo.
Nenhum outro fez um outro povo que não o seu torcer contra o próprio país em plena Copa do Mundo. Porque para os napolitanos do sul pobre e sofrido ele era muito mais importante e querido que a própria Itália na Copa de 1990, disputada... em plena Itália! Sim, o povo de Nápoles torceu para Maradona e sua Argentina contra a Squadra Azzurra.
Nenhum outro foi aclamado com um fervor tão profundo que por isso foi apelidado de Deus. Nem mesmo o Rei alcançou esse grau de adoração. Aliás, Pelé nunca foi amado como Maradona foi pelos argentinos e pelos napolitanos.
Poucos brasileiros entendem o que significa ser “Dios”. Preferem debochar e atacar o deus do futebol argentino. Poucos entendem como foi quase um milagre construir-se o mito Maradona ao mesmo tempo em que ele não conseguia desvencilhar-se das fraquezas do homem e menino Diego.
Sim, o Rei jogou mais. Mas não ganhou uma Copa “sozinho” como Maradona e Garrincha. E o nosso Atleta do Século não tinha que enfrentar, além dos adversários, os seus próprios demônios internos e a falta de estrutura para lidar com a fama e fortuna. E Pelé não veio de um lugar tão miserável como Diego, pois a sua Bauru da infância era muito mais digna e esperançosa que a Vila Fiorito, em Lanús, periferia de Buenos Aires. Pelé também contou com o respaldo e sabedoria de um pai e mãe muito mais preparados e educados, seu Dondinho e dona Celeste.
Quem quer conhecer a dimensão do amor de Maradona pelo futebol não pode perder o filme La Mano de Dios (está passando no Sportv), obra do cineasta italiano Marco Risi, que faz um preciso – tão belo quanto chocante e trágico – retrato da carreira do mais apaixonado futebolista de todos os tempos.
Por todo o filme vemos a mágica de Pelusa, depois Dieguito, depois Maradona e, enfim, Dios (Deus) ao longo dos anos quando sua varinha encantada, a perna esquerda, acariciava, na verdade, amava, uma bola de futebol. Mas vemos também como o gênio do futebol ia perdendo, fora dos campos, para adversários duríssimos chamados aproveitadores (entre eles, seus empresários), drogas (em especial a cocaína), putas, mafiosos e sua própria necessidade de ser sempre adorado, porque Maradona foi sempre o mesmo menino precisando de carinho e alento. Mesmo quando já consagrado como um deus dos gramados e de seu país carente de heróis no auge de sua carreira, quando a Argentina ainda vivia sob uma terrível ditadura militar, ele precisava ouvir seu nome cantado naquele irresistível “Maradô! Maradô! Maradô! Maradô!”.
Não, caros críticos de Diego, La Mano de Dios não é uma bajulação sobre ele. Pelo contrário, estão lá todas suas passagens mais terríveis com a cocaína e como isso praticamente destruiu parte importante de sua carreira. Está lá a proteção que tinha da Máfia de Nápoles, proteção que graças à sua ingenuidade no começo lhe custaria caro. Estão lá suas seguidas traições àquela que o amparou nos momentos mais duros, a namorada, depois esposa, Cláudia. Está lá a dor de não conseguir largar o vício enquanto via as filhas crescerem e ele seguir afastado de sua melhor forma no futebol. Estão lá todas as falhas e erros de um homem que, diferente do gênio dos campos, errou demais.
Está lá toda a dor de uma das cenas-chaves do filme: quando ele sai do quarto após uma crise gerada pela droga, entra na cozinha e sua filhinha está brincando com uma bexiga. Maradona pega a bola com a mão para a decepção da menina com um conselho e lei que ele mesmo um dia lhe dera e agora maculava:
- Papai, você pegou a bola com a mão.
O rosto de Maradona, por desapontar a filha, é uma das mais belas e tristes verdades de sua vida. Mas é também um dos acertos deste filme: mostrar como ele amava, e ama, suas duas meninas. Amor. Em poucos gênios do esporte e ícones de nosso planeta e história percebemos como a mais poderosa e valiosa das palavras-sentimentos é tão verdadeira. Em todo o filme há um fio condutor vital, uma cena que se repete toda vez que Maradona se mete no poço escuro das drogas ou outras falhas: surge sua lembrança, real, de quando era menino e quase morreu sufocado e afogado num poço cartesiano cheio de barro e água em plena tempestade.
O que o menino Diego estava fazendo para cair num poço fundo é a grande pista para descobrirmos como ele amava o futebol. Seu pai tenta salvá-lo seguidas vezes mas o menino reluta em tentar ser salvo antes de conseguir encontrar o que tanto procurava.
Diego só dará a mão a seu pai depois de encontrar o que tanto lhe importava. Um objeto que foi sempre igual ao seu próprio coração.
Imaginem o que ele buscava.
Ou vejam o filme e aprendam a amar também esse homem que errou demais mas que nunca ocultou isso. Como ele mesmo disse no dia de sua despedida do Boca Juniors: “Eu errei demais na vida, mas nunca manchei a bola de futebol”. La pelota no se mancha, disse Diego antes da Bombonera quase vir abaixo emocionada.
La pelota...
Nenhum outro amou-a tanto.
Talvez por isso nenhum outro fez tantas maravilhosas misérias com ela, seja do tamanho e material que fosse. De uma laranja ou uma maçã, de uma bolinha de papel ou da bola oficial, Maradona sempre soube realizar as mais belas embaixadinhas com qualquer coisa que tivesse a forma aproximada de uma bola.
A bola que ele nunca deixava cair porque era igual ao seu coração.
Poucas jogadas são tão belas e emocionantes no esporte: a bola parece que não vai cair nunca. Obedece à entrega de atletas sem medo que se atiram sem medo em defesas quase impossíveis. Ataques e defesas se sucedem como uma troca de torpedos sem fim de uma partida de tênis.
O tempo corre a algumas atacantes começam a diminuir a força. Sabem que a derrota nesta jogada dará muita moral às adversárias. O medo de errar aumenta o drama e a bola não tem outra opção senão viajar quase que eternamente de um lado a outro da rede.
O público, que mal respira, não quer que o lance termine; o locutor de TV carrega no tom épico e exagerado que a jogada realmente merece.
Até que alguém mais experiente ou louca mesmo consegue encontrar um espaço ou simplesmente enfia a mão e acaba com a brincadeira.
A bola cai, o ponto termina e a nós, amantes do esporte, resta a raiva de quem estragou esse grande prazer e espetáculo chamado rally do voleibol.
* Italianas e alemãs protagonizaram um inesquecível rally de quase um minuto e meio hoje no Campeonato Mundial. As germânicas venceram esta disputa, no 1º set em que venceram, mas depois perderam para as renascidas italianas, que foram comandadas por uma espetacular atuação da deusa Francesca Piccinini, 25 pontos no jogo. 3 sets a 1, com um 2º set de também espetaculares 32 a 30 para as bellas da Bota, que na sequência enfiaram um massacrante 25 a 8 e depois fecharam o jogo.
O que aprontou essa japonesinha,Kumi Yokoyama, no Mundial Sub-17, já está fazendo com que a comparem a Messi. Ou Marta. Não sei se é mais bacana o gol ou a locução apaixonada do japa.
Como é bom, mas raro, ver um atacante não se intimidar na frente do goleiro e surpreendê-lo com um leve tapa na bola, encobrindo o arqueiro. Raríssimos jogadores hoje têm a coragem de fazer essa jogada. Preferem chutar forte e rasteiro e geralmente jogam em cima do camisa 1 ou na arquibancada. Muller, que brilhou demais no São Paulo e também no Palmeiras, era mestre nessa frieza e habilidade na cara do gol. Pois o uruguaio Loco Abreu a executou com classe e tranquilidade no último sábado, dando a vitória ao seu Botafogo contra o Atlético, fora de casa. Golaço, muito mais difícil que os falsos golaços preferidos pela mídia na última rodada, pois as bombas de fora da área que andam acertando alguns é pura sorte.
Parabéns ao Loco, sempre um artista e matador com sua cavadinha polivalente.